quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Estudo do Dieese mostra que unidade dos bancários está revertendo perda histórica no piso.

Imaginemos que o conjunto dos bancários tivesse uma grande conta no sistema financeiro. Os bancários e bancárias seriam o maior cliente, depositando nesta conta diariamente o maior valor que um banco pode ter: o trabalho. Este trabalho gerou lucros astronômicos para o sistema financeiro nos últimos anos, estando o país em crise ou não. Mas, mesmo ganhando muito, o sistema financeiro está em dívida com os bancários e não deixa o trabalhador sacar o seu próprio dinheiro da conta.

Os banqueiros dizem que não podem autorizar o saque porque vão quebrar, porque não têm dinheiro, porque a crise internacional está aí. Restaria aos trabalhadores entenderem isso e colaborar. Se os bancários e bancárias quiserem sacar o dinheiro de que precisam e que o sistema historicamente lhes deve, a receita dos bancos é clara: vão ter que trabalhar mais, descansar menos, atingir metas que só ficam mais abusivas até ficarem doentes. E daí, rezar para não serem demitidos. É assim que os banqueiros tratam seu maior e melhor cliente: exigem que o trabalhador deposite todo o seu valor numa grande conta e não querem nem ouvir falar em dividir o lucro e recuperar as perdas no piso acumuladas nos últimos 18 anos.

O Dieese realizou um levantamento dos reajustes salariais obtidos pelos bancários nas campanhas desde 1995 no BB, Caixa e bancos privados (veja as tabelas no final desta matéria). O estudo mostra exatamente o quadro ilustrado nos dois parágrafos iniciais deste texto. Os setores públicos e privados estão em dívida com o trabalhador. Algumas evidências sobressaem dos percentuais conquistados pelos bancários nos últimos 18 anos. Os anos de neoliberalismo de FHC (1994-2002) foram cruéis para a categoria, a ponto de os bancários ainda lutarem para recuperar as perdas da política de estado mínimo e de desmonte.

Outra conclusão aponta a importância da greve e da unidade nacional da categoria na ampliação dos índices de reajuste do piso. Desde 2003, os bancários mantêm nacionalmente greves de grande repercussão ininterruptamente. Não por acaso, a partir de 2004, a categoria deu guinada nos reajustes e, há nove anos, conquista aumentos reais. Registre-se que o Dieese leva em consideração em seus estudos os reajustes obtidos pelos bancários nos Acordos Nacionais em relação ao Índice de Custo de Vida (ICV-Dieese) e o INPC-IBGE (Índice Nacional de Preço ao Consumidor) para calcular o aumento real.
O presidente do SindBancários, Mauro Salles, exalta a organização da categoria em nível nacional como um dos fatores que explicam as sucessivas vitórias nas data-base, assim como a unidade e a capacidade de mobilização. “Há 20 anos os bancários nacionalmente dão exemplo de unidade com as negociações coletivas em nível nacional. O que um bancário ganha no Rio Grande do Sul o outro lá de Rondônia também ganha. Montamos todos os anos um comando de representação nacional para irmos à mesa de negociação com a Fenaban. Temos tido êxito, como os números mostram. Mas ainda temos um caminho longo a percorrer para recuperar nossas perdas dos últimos 18 anos”, avalia Mauro.

Outra evidência do levantamento do Dieese é que, no conjunto dos bancos privados, a série histórica revela aumento real. Diferentemente do que ocorre na Caixa e no Banco do Brasil, bancos públicos nos quais os trabalhadores amargam perdas no saldo de reajustes dos últimos 18 anos.
Desde 1995, as perdas e ganhos deixaram um saldo positivo em relação ao ICV, de 1,66%, nos bancos privados, além de aumento real de 6,23% no que se refere ao INPC. Nos últimos 18 anos, os reajustes dos bancários chegaram a 307,75%, ante inflação de 301,09%, pelo ICV, e INPC de 283,84%. Como dito acima, os bancos privados têm oferecido reajustes seguidos. Mas também podem temer mais do que os públicos os efeitos de um piquete bem organizado em frente a alguma agência.

Banco do Brasil e Caixa, como informado, têm uma dívida histórica com os trabalhadores. Os sucessivos reajustes nacionais positivos em termos reais a partir de 2004, nestes dois bancos, ainda não foram suficientes para recuperar as perdas que o governo FHC causou. No Banco do Brasil, os bancários ganharam 184,11% de reajuste entre 1995 e 2012, acumulando perda de 29,17% (ICV) e de 25,98% (INPC).

Na Caixa, o reajuste , desde 1995, foi de 167,63%. Portanto, ainda menor do que no Banco do Brasil. Consequentemente, as perdas ou ausência de aumento real, foram maiores também. Os trabalhadores da Caixa tiveram aumento real de -33,27% (ICV) e de -30,28% (INPC). No caso desses dois bancos, o agravante é que são duas instituições públicas que devem fomentar o crescimento do país e distribuir a renda. Porém, não fazem o dever de casa.
Piores anos

Os anos em que os trabalhadores mais sofreram foram aqueles em que o governo neoliberal de FHC aplicou um truque. Quando o Plano Real ganhava a mídia, em 1995, os bancários da Caixa receberam o maior reajuste do período do estudo do Dieese. Com 20,94% de aumento na Caixa, a série histórica poderia ter iniciado com os maiores ganhos e inaugurar um ciclo virtuoso de aumentos reais no piso dos bancários. Nada disso aconteceu. No BB, este primeiro ano trouxe reajuste de 25%, e os trabalhadores dos bancos privados conquistaram 30% de aumento.

Mas foi justamente neste segundo ano de Plano Real (1995) que o ICV (28,14%) e o INPC (25,8%) bateram recordes. Resultado: as perdas deste período foram mascaradas pelo índice de reajuste e incidiram sobre a política de propaganda de êxito de um modelo econômico de austeridade e de eliminação de benefícios sociais. O ano em que os bancários tiveram o maior reajuste foi o ano em que houve a maior desvalorização do salário em comparação com a inflação. Falamos de 1995.



Enquanto os maiores reajustes dos 18 anos prenunciariam ganhos sucessivos nos anos seguintes, a real intenção foi amortecer a luta dos trabalhadores ante o pior ciclo de inflação do período abordado pelo estudo do Dieese. Sem conseguir controlar a inflação, o governo FHC, em seus primeiros anos, disfarçou a perda. O índice de aumento foi alto, mas a inflação também esteve entre as maiores do período.

Para se ter uma ideia, em 1998, FHC instituiu o Proer, socorro de bilhões de reais ao sistema financeiro, sustentado política e midiaticamente com um discurso de crise cuja inércia chega à mesa de negociação ainda hoje. Entre 1996 e 2001, penúltimo ano do governo FHC, 1998 foi o único ano com reajuste, mas não sem perdas. Os bancários da Caixa só conseguiram 1% de reajuste em seis anos, apesar da luta, ante ICV de 56,31% e 46,24% de INPC durante todo o período.

No Banco do Brasil, a história se repetiu. A diferença é que os bancários do BB tiveram dois anos de reajustes positivo, 1,7% (2000) e 2% (2001). As perdas foram menores do que na Caixa ante os índices inflacionários do período e mencionados no fim do parágrafo anterior.

Os trabalhadores dos bancos privados tiveram reajustes maiores, mas nem por isso deixaram de acumular perdas. Somando os percentuais de reajustes entre 1996 e 2001, os trabalhadores dos bancos privados conquistaram 40,37% nos seis anos de consolidação do Plano Real. No entanto, as perdas foram somente menores, considerando os índices inflacionários tomados como referência. Portanto, nos anos FHC, nunca houve aumento real para os bancários, mas só as maiores perdas. Os bancários correm atrás do tempo perdido até hoje.


Mudança de modelo

O levantamento do Dieese demonstra que a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência legou uma reversão no quadro de perdas dos bancários a partir do segundo ano de gestão (2004). As perdas se seguiram na transição dos dois modelos econômicos. Na Caixa, por exemplo, em 2002 e 2003, respectivamente, houve reajustes de 5% e 12,6%. Mesmo assim, não houve aumento real para os bancários da Caixa: -2,28% (2002) e -2,51% (2003), segundo o ICV, e -3,81% (2002) e -4,19% (2003), pelo INPC.

No Banco do Brasil, o ciclo virtuoso de crescimento real também não chegaria no primeiro ano do governo Lula. Os trabalhadores acumulariam perdas de 2,28% (2002) e 2,52% (2003), segundo o ICV e -3,81 (2002) e -4,19 (2003).

Apesar de a luta dos trabalhadores dos bancos privados para conquistar aumentos sucessivos nos anos de FHC, as perdas também eram constantes e se mantiveram na transição de um modelo a outro. Foram de 0,42% (2002) e de 2,51% (2003), pelo ICV. Nos mesmos dois anos, o INPC registrou perdas dos trabalhadores dos bancos privados de 1,98% (2002) e de 4,19% (2003), pelo INPC.

A partir de 2004, a história dos reajustes do piso dos bancários mudaria no compasso da história do país. Um processo de redução dos índices inflacionários, com estabilidade dos preços e crescimento econômico desenhou um quadro favorável para o aumento real sustentável dos bancários. Não coincidentemente, emerge outro fator de grande importância para a sucessiva recuperação das perdas dos tempos neoliberais. Desde 2004, portanto, há nove anos, os bancários mantêm greves nacionais anuais.

Luta e unidade

A repercussão da mobilização dos bancários se verifica nos aumentos reais conquistados. À exceção do aumento real para os trabalhadores dos bancos privados em 1995 (1,45%, pelo ICV, e 3,34%, pelo INPC), os dez anos anteriores (1995 a 2004) haviam sido de acumulação de perdas para os bancários do BB e da Caixa. Mas, a partir de 2004, começa um ciclo de aumentos reais. Desde então, são nove anos de sinais positivos nos percentuais que reduzem do reajuste os índices inflacionários (ICV e INPC). Porém, esses sucessivos ganhos não foram suficientes para reverter o estrago que o neoliberalismo provocou nos salários dos trabalhadores.

Outra regularidade pode ser obtida da leitura dos gráficos: os acordos coletivos passaram a ser obtidos de forma unificada para toda a categoria no Brasil a partir de 2003. Em 2004, com a consolidação do modelo econômico do novo governo, começa o período de aumento real. Sinal da importância do Comando Nacional dos Bancários nas negociações com a Fenaban. Mas sinal também de algo que é tão importante quanto conquistar reajustes. Manter a mobilização e a força da greve, o nosso verdadeiro instrumento de pressão por melhores salários. E não esquecer nunca que ainda precisamos lutar muito para recuperar perdas históricas.

Fonte: Imprensa SindBancários

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